domingo, 31 de maio de 2009

Elas





Dizem que são irmãs. Cada uma saiu de barrigas diferentes e um dia encontraram-se a caminho, por acaso. Como quem não quer a coisa, sem sequer dar por isso. Dizem que foi no momento certo, na hora certa, no local ideal - fora de tudo, numa bolha de oxigénio - por mero acaso.

Com elas, eu baixei a guarda, e rendi-me. Sem elas, eu não sei ser, sequer.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Let's take a walk




O meu coração tremeu, tremeu daquela maneira que tu sabes, aquela quando os meus olhos fixam o nada e não sei o que fazer das mãos. Fico com falta de ar, inspiro, expiro e parece que a divisão onde me encontro me roça o nariz e a pontinha dos cabelos, nem me espreguiçar consigo.

Vieste buscar-me, e a uma distância de poucos metros nem me avistaste – maldita miopia a tua – e sorriste, de cabelo desgrenhado como só tu sabes usar e queixo erguido naquele teu ar que eu odeio, ao qual eu não resisto nem nunca irei resistir.

É incrível como toda a minha convicção ficou ali, como nem o cigarro na minha boca me conseguiu dar aquela confiança de que tanto precisava. Eu, que queria esbofetear-te, dar-te pontapés às escuras, que queria arrancar alguma parte do teu corpo, fiquei ali a olhar-te, a perscrutar-te ao teu último pormenor, a procurar-te em silêncio – fazia semanas que não te via, não te ouvia, nem te sentia – a devorar-te por inteiro e num combate desesperado dentro de mim, contra mim, só contra mim, de mim para mim.

Puxaste-me, tocaste-me e beijaste-me e eu fiquei ali paralisada, de sorriso parvo estampado na minha cara de parva, a querer agredir-te e pegar na ponta do meu cigarro e queimar-te. Como sempre pediste para não fumar e como sempre eu fumei mesmo em frente aos teus lábios, e provoquei. É incrível como parecemos animais sempre que estamos juntos. Apodera-se de mim aquela ânsia de me vingar, de fingir que te amo violentamente, como se algum dia me fosse apaixonar por ti, de te magoar de amor.

Caminhaste ao meu lado e de soslaio ias observando cada atitude minha. Tu sabes, sabes bem quando me enervo, sabes que ponho as mãos à boca e mexo na mala, que depois procuro o isqueiro e acendo o cigarro, no canto direito da minha boca. E eu sei que me desprezas, sei que não me queres para nada, que apenas precisas de mim para te sentires amado, que queres uma queca ao som da tua música – sempre a tua música – queres dizer-me ao ouvido coisas obscenas e dares-me e dares-te prazer e no dia seguinte acordares ao meu lado e levares-me à porta da rua com um sorriso e um abraço grátis. E eu todas as vezes prometo por tudo que não haverá próxima mas da próxima vez, voltamos a encarnar animais e tu levas-me à dispensa, ao quarto de hóspedes, à varanda e fazes-me querer matar-te novamente, e eu enquanto grito de prazer penso em planos maquiavélicos para um crime perfeito. Mal eu sei que o teu crime já é perfeito e que dois crimes perfeitos acarretam uma probabilidade mínima e tu, tu menino mau, és perito nisso.

Foi mais uma conversa banal, em que balbuciei um terço do discurso que tinha preparado entre orações e cigarros, em que tu me sorriste, disseste duas ou três palavras e os problemas se evaporaram. Foi mais uma meia hora em que eu me senti feliz, em que eu esqueci que não passas de um cabrão que me ganha sorriso a sorriso e que me deixas o resto do dia a ressacar sobre o assunto – tu, obviamente – e a pensar num outro plano, aquele plano em que tu desapareces.

E queres saber de uma coisa?

Eu não gosto de ti, nada mesmo.
















quarta-feira, 13 de maio de 2009

Gravity




Há sempre qualquer coisa que me devolve a ti.

Odeio saber que nao se trata do fenómeno da forca gravítica.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fica




"Tenho tantos segredos que te quero contar, e uma noite não chega, diz que podes ficar. "

quinta-feira, 7 de maio de 2009




Sou feita de réstias de almas, de memórias e momentos que resistem ao esquecimento, sou feita de música, retratos e sorrisos dados, de coração aberto e pele a latejar. Sou feita de sonhos e abraços, de mundo a descobrir e caminhos a percorrer, de segredos ao ouvido e promessas, de palavras e gestos sem fundo e de aromas que vêm de longe. Trago cravado no peito as lembranças de outrora, as vivências do agora e bem intrínsecas no coração as mágoas e o amor que em mim se decidiram instalar. Sou porto de vida, albergue de história e abrigo de contos de fadas cujo final aprendi que é quase sempre feliz. Nos olhos trago as paisagens cheias de nada e tudo, as lágrimas que derramei e ainda vou derramar, na boca os sabores nunca experimentados e nas mãos ainda o toque de outras entrelaçadas nas minhas.
Eu sou assim, feita de saudade, mas essencialmente de vida.